Gato Fedorento

domingo, dezembro 07, 2003

SAIR, NÃO SAIR: Incomoda-me a falta de pontualidade. Segundo o meu amigo Chico, as pessoas chegam atrasadas porque, quando calculam o tempo de que precisam para chegar a determinado sítio, equacionam assim: “acordar e tomar banho 20 minutos, sair, não sair, cinco minutos...”. E acabam por chegar tarde.
Pergunta o Chico: o que é “sair, não sair”? Sair de casa, voltar a entrar, repetidamente? É estar na soleira da porta? Se sim, porque é que demora cinco minutos? Mais importante, como é que as pessoas calculam o tempo que vão gastar a sair, não sair? Haverá pessoas que precisam de mais tempo para sair, não sair, enquanto que outras, mais despachadas, precisam de menos?
O facto é que há muita gente que sai de casa de manhã sem tomar o pequeno-almoço, mas não há ninguém que saia de casa sem sair, não sair. Voltarei a este assunto. ZDQ
posted by Gato 11:11 da tarde

ODETE SANTOS: Agora foi Odete Santos que veio dizer que a Coreia do Norte não é uma ditadura. Pois é, a queda do muro fez pior do que eu pensava à Odete Santos. É que ela estava lá empoleirada e quando caiu bateu com a cabeça no chão.
(E com a cara também, pelos vistos. Mas nós, aqui no Gato, não fazemos considerações sobre o aspecto das pessoas. No entanto, é uma achega que interessa, como parte da polémica entre o Barnabé e o Abrupto.) ZDQ

posted by Gato 11:08 da tarde

TGV: Estou preocupado com a chegada do TGV ao nosso país. Se com os comboios lentos que cá temos já morrem tantos a atravessar linhas, tenho medo da hecatombe que o comboio de grande velocidade vai causar.
Intriga-me, a quantidade de pessoas que morrem a atravessar linhas de comboios. Porque é que as pessoas, antes de avançarem, não experimentam olhar para os dois lados? O que é que as leva a pensar que o que aprenderam em relação a atravessar ruas não se aplica às linhas de comboio? “Ó Manel, antes de atravessares, olha para os dois lados!” E responde o Manel, sarcástico: “Ó Rui, mas isto é alguma ru...” (som pancada seca, seguido de chiar de travões – ou não, dependendo da boa vontade do maquinista)
Será que o Estado tenciona fazer algo? Será que é por isso que este novo comboio se chama “tájaver”? ZDQ
posted by Gato 11:02 da tarde

sábado, dezembro 06, 2003

ESTRANHO SILÊNCIO (1): Não é segredo para ninguém que a crítica tem ignorado o livro de poemas de António Manuel Ribeiro (AMR). As razões desse ostracismo é que permaneciam por explicar. Até hoje, dia em que – espero – denunciarei as causas deste escândalo, que envergonha como poucos a Academia e o jornalismo cultural do nosso país.
A verdade é simples, e é esta: AMR incomoda. Transgride. Viola as regras do establishment contentinho do meio literário português – e as da gramática, de vez em quando. AMR coloca questões que desconcertam, a começar logo no título da obra: “Se o amor fosse azul que faríamos nós da noite?” É um título que abre um debate importante. Até hoje, nenhum poeta, que eu saiba, conseguiu caracterizar cromaticamente o amor. AMR, no entanto, sabe qual é a cor dele. Não revela, mas levanta o véu para nos dizer apenas que não é azul – porque, se fosse, teríamos, ao que parece, graves sarilhos com a noite. É irritante que AMR, sabendo de que cor é o amor, faça caixinha connosco? É. Mas contentemo-nos com o facto de sabermos que, seja qual for a cor que o amor tem, ela não põe em causa o que nós fazemos da noite.
Nesta primeira nota (de uma série que publicarei sobre “Se o amor fosse...”), gostaria de analisar um dos temas centrais da obra poética de AMR, que é – adivinharam – as instalações sanitárias. Comecemos pelo poema “Azulejo” (p. 45):

O sémen vai com a água
Solitário na casa de banho
Branco nos contornos da mágoa
Assim sem ti me venho


Que dizer desta pequena pérola? Em primeiro lugar detenhamo-nos no título, “Azulejo”, realidade que, provavelmente, o poeta contempla enquanto leva a cabo a actividade que redunda na situação descrita nos versos. Como os Românticos, AMR adequa a paisagem que o rodeia à sua paisagem interior. O coração do poeta é, naquele momento, inóspito, frio e insípido como a parede de azulejos que tem diante de si. É com esse estado de espírito que ele observa o sémen, solitário. Tão solitário, diríamos, como o próprio poeta, seu emissor – e veja-se o que uma metonímia, quando é usada com a-propósito, pode fazer por um poema –, mas depressa constatamos que o destino do poeta não tem par: nem o sémen é tão solitário como ele, uma vez que “vai com a água”.
Noutros dois poemas em que a louça de casa de banho assume algum protagonismo, AMR faz aquilo que é, para mim, uma justa homenagem ao bidé. “Bidé” tem sido uma palavra injustiçada por poetas de todos os tempos e lugares, sendo usada muito menos vezes do que mereceria. Não é isso, porém, o que acontece no poema “Sórdido à nascença” (p.69):

Fazem-te nascer
Pelo uso do prazer
E às vezes até
Sem qualquer razão

Que passa por ser
Descuido e azar
Um sofá, um bidé
Uma cama ou o chão


É interessante notar que a obsessão de AMR pelo WC o leva a considerar que alguns irresponsáveis, desses que fazem nascer crianças “pelo uso do prazer”, cheguem ao ponto de as conceber num sofá, numa cama, no chão, ou num bidé. Confesso que, ao contrário do que se diz por aí, não sou especialista em bidés. Mas acho difícil manter uma relação sexual séria e compensadora dentro de um.
O bidé volta a ser referido no poema “O peso da noite”:

Acordei
Soterrado em moscas
Tontas loucas prontas
A cagarem-me o juízo

(...)

Acordei
Comendo a merenda
Lenta lesma prenda
Junto ao frio do bidé


Se me permitem, gostaria de dizer que este é o meu poema preferido. Em primeiro lugar, porque fala de sensações que já todos tivemos e conhecemos bem, como é a de acordar soterrado em moscas que estão prontas para nos cagarem o juízo. O que é magistral, em AMR, é a capacidade de nos transmitir o modo como as moscas, de tão maçadoras e inoportunas, conseguem tocar – ainda para mais, cagando –, uma entidade abstracta e, logo, impalpável, como é o juízo.
Em segundo lugar, creio que a merenda de que se fala na segunda estrofe não é uma merenda qualquer. É uma merenda que remete para uma outra merenda célebre da poesia portuguesa: a que Cesário descreve no poema “De Tarde”. No entanto, na merenda de AMR não há burguesas, não há talhadas de melão, nem damascos, nem pão-de-ló molhado em malvasia, e não há ramalhetes rubros de papoulas. Porque AMR não quer descrever o sentimento de um ocidental mas sim, diríamos, o sentimento de um neandertal, que é o único homem da história cuja capacidade craniana lhe permite considerar que fazer um piquenique junto ao bidé é capaz de ser uma boa ideia. (Voltarei em breve a esta obra, pois há muito para dizer.) RAP
posted by Gato 7:59 da tarde

COMEÇAR DE NOVO: Retomo a partir de hoje a participação regular no Gato Fedorento. O meu objectivo é provar que um homem pode passar pela experiência da paternidade e continuar a ser o mesmo sacana que era antes.
Entretanto, enquanto estive fora, foram surgindo blogs de amigos e inimigos íntimos, ou apenas vagos conhecidos, que aproveito, ainda que tardiamente, para mencionar: O Companheiro Secreto, de, entre outros, José Tolentino Mendonça, grande poeta e tradutor (foi também o padre que me casou, mas eu não sou de guardar rancores); o Barnabé (a dream team contra o Império. Força, rapazes!); A Praia, de Ivan Nunes (ah, ah, ah! Três secos de uns turcos impronunciáveis!); e o Blog Agora, do Frederico Pombares.
No campo do reaccionarismo de qualidade, registo (a contra-gosto, evidentemente) a chegada dos sempre enervantes João Pereira Coutinho e Alberto Gonçalves.
Está feito. Vamos a isto. RAP
posted by Gato 7:41 da tarde

sexta-feira, dezembro 05, 2003

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA: Depois do aumento das propinas no ensino superior, Manuela Ferreira Leite já pensou noutras medidas para combater o défice e vai começar a cobrar propinas aos contribuintes que frequentaram a escola da vida, sem qualquer tipo de contrapartidas financeiras. O presidente da AAAEV (Associação Académica dos Alunos da Escola da Vida) já veio a público contestar a decisão, baseando-se no facto de vir consignado na Constituição que “a escola da vida é tendencialmente gratuita”. Também a FENPROF já protestou contra a adopção desta medida, sobretudo pelo facto do Estado nunca ter pago qualquer tipo de remuneração aos milhares de professores que leccionaram na escola da vida, ainda por cima sem qualquer tipo de condições. “As aulas são dadas onde calha e quando calha”, queixa-se um dos docentes. MG
posted by Gato 12:31 da tarde

quarta-feira, dezembro 03, 2003

PORQUE É QUE NUNCA PODEREI SER PUBLICITÁRIO: a) não gosto de usar ténis esquisitos; b) um amigo pede-me, à guisa de brincadeira, para lhe arranjar um slogan para o restaurante. Proponho isto:
Foto de jovem etíope. Legenda: "Sabia que, todos os dias, morrem de fome 24 mil pessoas no mundo? Não seja uma delas! Venha almoçar à Tasca do Pereira!" ZDQ
posted by Gato 1:32 da manhã

NA ESTRADA: O problema da falta de civismo nas estradas portuguesas radica no permissividade com que vemos os bebés aprender a andar. Senão, reparem: o bebé, mal se aguenta nas pernas, desata a andar em todas as direcções numa velocidade claramente acima da sua capacidade de controlo. Só pára quando esbarra contra qualquer objecto que esteve sempre à sua frente, estatelando-se no chão. Não respeita nada, nem ninguém. Não se preocupa com a sua integridade, nem com os danos materiais que pode causar.
O que é que nós fazemos? Punimos? Não. Rimos. Quando choca contra nós, rimos. Quando cai de cu, rimos. Quando se inclina para a frente para tomar balanço, tiramos os pratos da mesa e depois rimos. Com isso, estamos a encorajar um tipo de comportamento que, mais tarde, nos vai causar transtornos.
Falo da forma como alguns idosos escolhem para se locomover, devagar e na diagonal, dificultando o trânsito pedestre. “Velho que hoje caminha enviesado, bebé que a andar foi mal ensinado”. Podia ser a epígrafe dum Código do Peão. Infelizmente, não é. ZDQ

posted by Gato 1:31 da manhã

Powered by Blogger

 

Um blog com opiniões, nenhuma das quais devidamente fundamentada. Mantido por: Tiago Dores, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela. E-mail: gatofedorento@hotmail.com

Past
current