Gato Fedorento

domingo, junho 08, 2003

EXPRESSO: No post anterior não há link para o texto referido porque o Expresso cobra pela consulta da sua edição on-line. Quando eu vi lá 1,9 euros ainda pensei “olha, ainda me pagam para ler isto. É pouco, mas tudo bem...” Afinal, parece que não. ZDQ
posted by Gato 11:10 da tarde

CRITIC IN A FOREIGN LANGUAGE: A crítica musical do Expresso é sempre uma ajuda para quem gosta de se aconselhar antes de gastar dinheiro num disco. Pego no suplemento “Actual” desta semana e leio “Talvez Viver”, a crítica de João Lisboa (JL) ao novo disco de Lloyd Cole, “Music in a Foreign Language”. Apesar de um início em que se queixa do “efeito-moda na crítica musical” e de “bacocas hipérboles de importação”, eu continuo a ler até JL começar a falar do disco em si.
Em primeiro lugar, fico a saber que Lloyd Cole “existe bastante”. É reconfortante, para quem deseja comprar um disco, saber que o seu autor “existe bastante”, ao invés de só existir suficientemente ou mesmo existir pouco. Deve ser sinal de que a sua existência extravasa para a música, o que é bom. Ou então, é só um eufemismo para “estar gordo”. Nesse caso, sinto empatia para com Lloyd Cole.
Depois vem a já clássica – e sempre necessária – citação de letras. Diz JL: “Quando se abre um álbum com as palavras “I am cold, distant, increasingly resistant to your smille, this I don’t deny” e, logo na canção a seguir, se reincide com ”Clearly you can see that I’m bleeding, clearly you can see my clothes are torn, clearly this demands an explanation, only I can offer none”, deixa muito poucas dúvidas”. Deixa muito poucas dúvidas de quê?, pergunta o leitor que ainda não ouviu o disco. De que Lloyd Cole está chateado? Está com fome? Está com vontade de trocar de carro? Claro que não. Como explica JL, o que estes princípios de canções não deixam dúvida é de que Lloyd Cole continua com “ironia cínica”. Agora, eu percebo que “I am cold, distant, increasingly resistant to your smille, this I don’t deny” e “clearly this demands an explanation, only I can offer none” reflictam a ironia de que JL fala. Mas, e o cinismo? Confesso que não vislumbro. É por estas e por outras que nem todos (eu incluído) podem ser profissionais da crítica.
[já agora, tenho uma dúvida que gostava de pôr a JL. O álbum “Pet Sounds” dos Beach Boys começa com “Wouldn’t it be nice if we were older / Then we wouldn’t have to wait so long”, para logo na canção a seguir abrir com “I know perfectly well / I'm not where I should be”. O que é que isto quer dizer? Humildemente, acho que, das duas uma: ou o autor está carregadinho de alegria ou de tristeza. O que pensa JL?[
Para terminar, JL conclui que o disco é “um delicado ensaio quase sempre acústico sobre a impossibilidade de comunicação”. E é aqui que Lloyd Cole me perde. Um disco “quase sempre acústico”? “Impossibilidade de comunicação"? Está visto que devem haver ali pelo meio espaços de silêncio. Ora, não vou dar três contos de reis por um disco que não é sempre acústico.
No entanto, JL quase me convence novamente com mais citações de letras, ao dizer, por exemplo, que o disco tem “telegramas gelados como “is it too late to be post-mortem lovers?” Confesso que a temperatura desse meio de comunicação sempre me fascinou, mas, mais do que um telegrama, não será “is it too late to be post-mortem lovers?” um e-mail? Quanto muito, um fax? Mais uma vez, reduzo-me à condição de leigo e confio em JL quando ele afirma serem telegramas.
A terminar, quando JL diz que o disco contém “a irrisão de uma hipótese de redenção sob a forma da ironia ácida de “I hear they have the good drugs in Brazil, maybe I’ll take some, maybe I’ll feel better if I do” eu estou quase tentado a mudar de ideia e a comprar o disco: talvez se ouvir muitas vezes as letras citadas, consiga passar a discernir a ironia cínica da ironia ácida.
Como diria JL, “no fim, resta, se calhar, só um desabafo quase indiferente: “Still you might as well live”. No meu caso, o desabafo é totalmente indiferente: não vou comprar o disco, não volto a ler estas críticas. ZDQ

posted by Gato 11:09 da tarde

SACANAS: Invejo a sorte dos alunos da Universidade da Beira Interior. Eu nunca tive professores destes. RAP
posted by Gato 10:43 da manhã

sábado, junho 07, 2003

MARANTE: O Tiago, do Voz do Deserto, ajuda-me a fazer a destrinça entre a carreira a solo de Marante e a caminhada que o artista que tem feito com os Diapasão. O percurso a solo é evidentemente mais pobre, o que não deixa de causar surpresa: para mim, Marante foi, é, e sempre será a alma dos Diapasão. Mas o homem cuja voz inconfundível imortalizou temas como “Dá cá, dá cá, dá cá”, “Boca Marota”, “Ai Que Lindas Que Elas São” e “Bela portuguesa”, não consegue, sozinho, atingir (e muito menos superar, como todos esperávamos) o patamar de qualidade que alcança nos trabalhos que faz com o agrupamento. Que fenómeno é este? Arrisco uma explicação: o génio de Marante precisa de ser apoiado pelo labor dos Diapasão. Marante define as linhas gerais, a filosofia do projecto, a estética das canções. Mas não tem tempo para a concretização do trabalho. Porquê? Bom, de certo modo envergonho-me de trazer à liça tão prosaico assunto. Mas suspeito que seja por causa do cabelo. O cabelo de Marante é uma fina obra de filigrana. Apenas duas áreas do crânio de Marante logram fazer brotar pilosidades: o occipício e as patilhas. Com as repas que dali irrompem, Marante compõe depois um entrançado complexo que cobre toda a cabeça. Ora, isto leva tempo. É obra para dar trabalho de horas a ourives experimentados, quanto mais a um homem de prodigioso talento musical mas leigo em joalharia. Nos trabalhos que faz com os Diapasão, o agrupamento compensa esta indisponibilidade de Marante. O artista só tem que aparecer, já com a tapeçaria capilar urdida, e cantar. Mas na carreira a solo, esta falta de dedicação ao trabalho consubstancia-se na menor qualidade que conhecemos e lamentamos. Um abraço, Tiago. RAP
posted by Gato 11:58 da tarde

UMA PRECE: Já estamos em Junho e, que eu tenha dado por isso, este ano ainda não morreu ninguém da família Kennedy. É mais um facto bizarro, a confirmar que o mundo anda de pernas para o ar. Mas é impressionante a quantidade de partidas que o destino tem pregado aos Kennedy. De tal modo que, não sendo crente, dou por mim a pedir a Deus que pare de massacrar a família Kennedy. E que comece a dizimar a família Bush. Pode ser que a minha prece tenha sido ouvida. Vamos esperar para ver. RAP
posted by Gato 6:54 da tarde

COMPÊNDIO DO ESFÉRICO: O blog Caderneta da Bola é uma preciosidade. Os autores exibem uma erudição futebolística extraordinária, uma memória espantosa e um contagiante gosto pela petite histoire, tudo relatado num português voluptuoso. Até agora, foram relembradas as carreiras de algumas das contratações mais estrondosamente falhadas do FCP, tais como Alejandro Diaz, Baroni, N’Tsunda, Walter Paz e Mogrovejo. Deu-se atenção a nomes que qualquer adepto do futebol lamenta ter deixado de ouvir mencionar, como é o caso de um Niquinha, um Chicabala, um Mangonga ou um Marlon Brandão. E recuperaram-se as épocas de ouro do Gil Vicente e do Tirsense, cuja lembrança nunca aborrece. Ali, os jogadores são, quase sempre, tratados pelo seu nome completo. Qualquer principiante recorda Vital, guardião de um metro e vinte de altura que tantas e tantas alegrias deu a benfiquistas e portistas enquanto guarda-redes do Sporting. Mas só na Caderneta da Bola se faz justiça a Jorge Manuel Domingues Maria Vital, seu nome completo e verdadeiro.
Não quero intrometer-me na linha editorial do Caderneta, mas vou ceder à tentação de sugerir um tema. É uma questão marginal, admito, mas julgo que pertinente. Trata-se do modo como os vários comentadores pronunciam, cada um à sua maneira, os mais exóticos nomes de futebolistas. Recordo com saudade um Vlk, e as dores de cabeça que o seu nome, composto por três consoantes surdas, dava a Miguel Prates (pronunciava Félque), a José Nicolau de Melo (Vlique) e a Gabriel Alves (Ffffffffffffffff). RAP
posted by Gato 1:28 da manhã

sexta-feira, junho 06, 2003

MISTÉRIO: Porque é que será que, quando ouço a Manuela Azevedo (dos Clã) cantar “a minha namorada / é tudo o que eu queira”, no último disco do Sérgio Godinho, não tenho outro remédio senão sentar-me e cruzar a perna? MG
posted by Gato 11:53 da tarde

BLOGOPANCADARIA DA GROSSA: O Gato Fedorento está chocadíssimo com as sucessivas ameaças de pancadaria entre bloguistas (A Patuleia/A Coluna Infame e, mais recentemente, Luís Filipe Borges/Maradona). Então estes autênticos gladiadores da blogosfera andam a combinar duelos e não revelam publicamente o local, a data e a hora dos combates? Vejam lá isso. MG
posted by Gato 11:40 da tarde

CARVALHAS, SEMPER FIDEL: O PCP assinou um acordo de cooperação com o Partido (Único) Comunista Cubano. Ao que parece, Carvalhas pôs ao serviço da Revolução alguns membros da ortodoxia, que irão para Cuba, não para divertimento em Varadero, mas para ajudar a interrogar dissidentes, cada vez em maior número. Esta notícia aparece hoje meio escondida no Público. O que diriam os jornais de um “CDS/PP assina acordo de cooperação com o partido de Heider”? Quer dizer, agora estou a ser injusto. Os jornais continuariam a dar pouca importância, a não ser que o “acordo de cooperação” fosse para traficar criancinhas numa rede pedófila. ZDQ
posted by Gato 7:36 da tarde

NO IRAQUE, NADA DE NOVO: Afinal, tudo indica que não há mesmo armas químicas no Iraque. A não ser que os iraquianos as tenham escondido tão bem como os americanos gostavam de ter escondido a verdadeira razão que os levou a intervir no Iraque. TD
posted by Gato 2:26 da manhã

EU JÁ NEM PEDIA TANTO: Um grupo de cientistas apresentou recentemente um estudo segundo o qual o planeta vai aquecer 3,5 graus até ao ano 2100. Não querendo pôr em causa o rigor científico deste trabalho de investigação (ainda devem ter sido necessários alguns 15 segundos para decidir se era melhor apresentar o valor 3 ou 3,5), até porque vejo nos olhos do meu pequenito mas atento trineto a apreensão que esta notícia provocou, eu já ficava bastante satisfeito se esta malta da meteorologia me soubesse dizer, com alguma certeza, se este fim de semana o tempo vai estar bom para ir à praia ou não. TD
posted by Gato 2:17 da manhã

A POTÊNCIA NÃO É NADA SEM CONTROLO: Se há empresa que eu aprecio é a Pirelli. Durante algum tempo questionei-me porque raio é que uma marca de pneus havia de fazer, todos os anos, um calendário com mulheres nuas. Mas a resposta é mais que óbvia: como a lei estabelece a obrigatoriedade de afixação de um calendário com mulheres nuas – com seios, pelo menos, copa C – em qualquer estabelecimento de reparação automóvel, boa parte dos proprietários dos mesmos dá preferência aos calendários da Pirelli, que pelo menos é um produto que já conhecem e que sabem ser de confiança. E a marca consegue, assim, gerar uma grande empatia junto dos clientes. Já agora, eu tomava a liberdade de dar uma sugestão. Senhores da Pirelli. Uma vez que fabricam pneus, porque não aproveitar as sobras do material para produzir aquele outro tipo de borracha, também redonda mas mais pequenina, que ainda por cima é tão popular junto de qualquer indivíduo que tenha acabado de consultar o vosso calendário? TD
posted by Gato 1:37 da manhã

É UM PÁSSARO! É UM AVIÃO! É O PAPA!: João Paulo II iniciou a centésima viagem do seu Pontificado. Desde a sua nomeação, o Papa mais mediático de todos os tempos percorreu já 1.200.000 quilómetros. Ou seja, já deu 30 voltas à Terra! Razão têm aqueles que dizem que este Papa é um verdadeiro Super-Homem. TD
posted by Gato 12:55 da manhã

PLAY WITH IT AGAIN, BILL: Hillary Clinton prepara-se para lançar um livro chamado Living History, sobre os oito anos que passou com Bill Clinton na Casa Branca. Parece que esta auto-biografia tem várias referências aos momentos difíceis que o casal viveu depois de rebentar o escândalo Monica Lewinsky. A verdade é que esse caso parece não ter servido de lição ao ex-presidente que, segundo o Gato Fedorento apurou, ainda recentemente esteve envolvido noutra situação complicada.

Hillary: Já leste o meu livro, Bill?
Bill: Já, já.
Hillary: E então? Achas que está bem assim ou mudo alguma coisa?
Bill: Eu gostei, mas acho que o final é um bocado precipitado. Não sei, parece que acaba assim de repente.
Hillary: É? Dá cá, deixa-me ver... O que é isto, Bill?
Bill: O quê, querida?
Hillary: Ó Bill! As últimas trinta páginas estão todas coladas!
Bill: Co... co… coladas? Como assim, querida? Que disparate.
Hillary: Sim, Bill! Coladas! William Jefferson Clinton, tu andaste outra vez enrolado com a tua assistente!
TD

posted by Gato 12:33 da manhã

quarta-feira, junho 04, 2003

BURRO NOVO APRENDE LÍNGUAS: Estive a ouvir o último disco do Sérgio Godinho e fiquei muito impressionado com a nova versão da Balada da Rita, cantada pelo próprio Sérgio Godinho e pelo David Fonseca. Não estava nada preparado para aquilo que ouvi: não é que o David Fonseca fala muito bem português? No entanto, ao que parece, foi trabalhoso convencê-lo a cantar na língua de Margarida Rebelo Pinto (já se impunha o aggiornamento, não acham?). Durante os primeiros dias de gravação, a música saía-lhe assim...

They told me, one day,
Rita, put yourself in guard
I warn you, life is tough,
Put yourself in guard
Close both fists
And walked,
Put yourself in guard
And I said goodbye to misfortune
And stretched the hands to adventure
Yet, here it is who spoke


... e por aí fora. Perdão, and so on. MG
posted by Gato 11:57 da tarde

DESODORIZANTE PARA LIVROS: Cada vez que se fala no e-book, há sempre alguém que diz: “Que horror! Eu não consigo passar sem o cheiro dos livros”. Confesso que sou esquisito: não compro os livros em função do seu cheiro. Assim como não compro perfumes em função da sua estrutura narrativa. Mas gosto sempre de imaginar uma crítica literária baseada em critérios puramente aromáticos. “Não estava nada à espera do cheiro do final do Guerra e Paz”, devem dizer estes entusiastas do extrínseco. E, de vez em quando, viram-se uns para os outros e confessam, com ar nostálgico: “Vai para duas semanas que não leio nada. Ando constipado”. MG
posted by Gato 11:20 da tarde

YO, HOE!: Os rappers portugueses, que só falam da porcaria de vida que têm, deviam é pôr os olhos neste 50 Cent. Ao ouvir a versalhada dos Da Weasel, tenho vontade de nunca visitar o gueto. Agora, com letras como esta...

You can find me in the club, bottle full of bub
Look mami I got the X if you into taking drugs
I'm into having sex, I ain't into making love
So come give me a hug if you into to getting rubbed


... também eu quero ser um gangsta rapper! Este gajo tem classe. ZDQ

posted by Gato 9:28 da tarde

COME ON, MALTEZ, MAKE MY DAY: Gosto muito de um poema do Brecht chamado Die Bücherverbrennung. Quando os nazis mandam queimar publicamente os livros proibidos, um poeta perseguido descobre que, por esquecimento, os seus livros não constam da lista de obras a queimar. Irado, corre até à sua secretária e escreve uma carta aos responsáveis exigindo que os seus livros sejam também lançados na fogueira. É mais ou menos isto. Lembrei-me deste poema quando soube, hoje, que José Adelino Maltez ameaçou Pedro Lomba e Pedro Mexia de pancada. A minha indignação foi enorme (para não falar na inveja). Exijo ser ameaçado do mesmo, e já. Não mereço que José Adelino Maltez me faça uma desfeita destas. RAP
posted by Gato 12:28 da manhã

terça-feira, junho 03, 2003

G-8 A G-3: No Blog de Esquerda, o Zé Mário Silva queixa-se de não ter podido acompanhar as manifestações contra a reunião do G-8 pelos noticiários portugueses. Descansa Zé Mário, foram iguais às outras todas, de Toronto a Porto Alegre - por falar nisso, quem será o agente de viagens destes jovens? Aliás, se quiseres, ainda tenho aqui a épica k-7 com os acontecimentos de Génova. A fita está um bocadinho gasta, porque costumo vê-la muitas vezes. Se quiseres, mando-ta. Para não dizeres que a Direita não é generosa. ZDQ
posted by Gato 2:59 da tarde

SOBRE O HUMOR 3: Afazeres vários têm adiado a discussão de um tópico interessante proposto por Pedro Lomba. Vamos a ele: o Pedro levanta o problema da relação entre o humor e a política. Pergunta: “Como deve um humorista relacionar-se com a política? As opções políticas condicionam o tipo de humor que se faz? São irrelevantes?” Pessoalmente, creio que todas as opções (e não só as ideológicas) condicionam o tipo de humor que se faz. Uma das características mais importantes no humorista (e no artista?) é, parece-me, a autenticidade. E para ser autêntico, o humorista não pode renegar as suas crenças, opiniões, ideias – enfim, não pode renegar-se.
Mais adiante diz o Pedro: “Um humorista de esquerda encontra-se em inevitável conflito consigo mesmo. (...) A esquerda é seguramente menos capaz de ironizar consigo mesma do que a direita.” Não estou mesmo nada convencido disto. Pensemos num exemplo próximo de nós: o Herman foi censurado duas vezes. Ambas por governos de direita e por causa de temas religiosos (a Rainha Santa e a Última Ceia). Não quero com isto dizer que a direita tem menos sentido de humor do que a esquerda. Escrevo humor há anos suficientes para saber do que é que ambas as casas gastam. Há de tudo em todo o lado. E há, sobretudo, um fenómeno que o Miguel Góis identificou muito bem num post anterior: todos gostamos muito de rir desde que não se faça humor com o nosso quintalinho.
Diz ainda o Pedro: “Talvez por isso os comunistas são as criaturas com menos sentido de humor que eu conheço.” Eu diria o seguinte: as pessoas que se levam demasiado a sério, para quem o sagrado é intocável (e todos, crentes e não crentes, temos os nossos temas sagrados), serão as criaturas com menos sentido de humor que é possível encontrar. O fundamentalista religioso não tem sentido de humor. É certo que há alguns comunistas que têm uma relação com a ideologia similar à que o fundamentalista religioso tem com a religião. Mas, que diabo, não são os únicos. Serão, talvez, os que mais irritam o Pedro.
Tentando levar mais longe uma suposta incompatibilidade filosófica entre a esquerda e o humor, diz o Pedro: “A esquerda aspira a uma realidade construída ideologicamente, a uma realidade idealizada. O humor é, convenhamos, a negação de tudo isto: a negação da ideologia, a negação daquela construção e daquela idealização; no limite, até pode ser a negação da realidade e a afirmação do absurdo. (...) Um humorista é uma criatura distanciada do mundo, distanciada da realidade”. De acordo, mas é uma distância que, se me é permitido o paradoxo, aproxima. O sketch da “Society For Putting Things On Top Of Other Things”, dos Monty Python, que à primeira vista está tão longe de qualquer realidade que conheçamos, é um eficacíssimo retrato de uma certa mesquinhez com que convivemos todos os dias. O Black Knight, do “Holy Grail” é uma das maiores afirmações do absurdo que conheço. Será também, pela sua extraordinária bizarria e improbabilidade, uma ideia distanciada da realidade. Mas todos nos lembrámos daquele Cavaleiro Negro enquanto víamos as conferências de imprensa do muito real Ministro da Informação do Iraque. Penso que a distância entre o humor – mesmo o mais absurdo – e a realidade é, tal como sucede nas fábulas, apenas aparente.
Finalmente, o Pedro arrisca: “E aqui entra o meu palpite: de certo modo, o esquerdismo do Ricardo atrapalha-o como humorista.” Ora essa, Pedro. Até me ajuda. Há lá coisa mais engraçada do que ser comunista em 2003? RAP
posted by Gato 1:59 da manhã

COM A DIREITA, BOFETADAS, COM A ESQUERDA, FESTINHAS: Num post intitulado Pequeno Ensaio Sobre a Generosidade na Blogosfera, o Zé Mário Silva, do Blog de Esquerda, falando de um belo gesto postal que lhe fizeram recentemente, começa na generosidade e acaba por discorrer sobre a diferença entre Esquerda e Direita. [ponto 5 do post]
Podíamos passar posts e posts a discutir, cada qual do seu lado a dar exemplos de pessoas de direita e de esquerda que consideramos as mais virtuosas, mais generosas, o que for. Eu ganharia. Pelo menos, tenho-me como um dos maiores mentirosos de Portugal. Mas não é por aí.
O Zé Mário diz que acredita na natureza humana e que a Direita não. “A direita não acredita e faz gala de exibir o seu desprezo pelas multidões, pela "maralha", enquanto defende que no fundo somos todos intrinsecamente maus como as cobras, com as devidas e beatíficas excepções.”
A Direita não acha que os homens sejam intrinsecamente maus. Nem bons. Acha que têm a capacidade para realizarem o bem e o mal. Muitas vezes concomitantemente. São complexos. Agora, o Zé Mário tem razão numa coisa: a direita não tem “esperança” num tempo em que o Homem venha a ser bom. Sabe que isso nunca irá acontecer, a não ser com uma mudança na natureza humana, que é sempre o objectivo subjacente das divertidas utopias totalitárias. Para não ter que depender da “bondade humana”, existem coisas como os tribunais e demais instituições democráticas. Paro agora, que, com este discurso de "confiança nas instituições", começo a soar como um dos suspeitos da Casa Pia. ZDQ
posted by Gato 12:43 da manhã

segunda-feira, junho 02, 2003

DORMIR NA FORMA: Um grupo de pessoas de Leiria criou a Associação Portuguesa da Sesta, a APAS, para lutar pelo direito à “pausa de repouso intercalar na actividade laboral”. É impressão minha ou isto não é lá muito original? Sim, porque já existe um grupo de indivíduos que se dedica a repousar na actividade laboral, de forma organizada, há muito tempo. Até se reúnem ali para os lados de S. Bento e tudo. Parece que a organização se chama Assembleia da República. TD
posted by Gato 8:42 da tarde

NOT SO GOOD NEWS: De acordo com a Prevenção Rodoviária Portuguesa, hoje foi o dia em que menos condutores foram apanhados com excesso de álcool no sangue. Não. Isto não é nenhum indício de que, em Portugal, se esteja a conduzir mais civilizadamente. Foi só porque um camião cisterna despistou-se no IP 5 e entornou todo o vinho que transportava. TD
posted by Gato 8:31 da tarde

NO ANTIGAMENTE... O Pacheco Pereira anda à cata de objectos que estejam a cair em desuso. Tendo lido no blog dele expressões como “amiúdes vezes”, lembrei-me de um: o prontuário. ZDQ
posted by Gato 1:02 da manhã

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Um blog com opiniões, nenhuma das quais devidamente fundamentada. Mantido por: Tiago Dores, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela. E-mail: gatofedorento@hotmail.com

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